2006.01.13

De Belém ao Lago Rosa. 

Lisboa-Dakar 2006.

  

Vista por muitos como a última aventura do desporto motorizado, a odisseia Dakar nasceu do impulso criador de um homem que se tornou lenda: Thierry Sabine. Inspirado no Rali Abidjan-Nice de 1976 em que participara, Sabine delineou uma prova que se por um lado era extremamente dura e difícil, por outro respondia ano após ano às expectativas dos que a ela iam aderindo. Sabine desapareceria durante a edição de 1986, mas deixou um Rali suficientemente sólido para ser não só a prova fundadora do todo-o-terreno moderno como também a referência incontestada nas últimas três décadas neste tipo de competição. Hoje, o Dakar é, para além de um evento desportivo de cariz mundial, uma gigantesca operação de logística que assegura diariamente a movimentação, alimentação e acampamento, quase sempre em pleno deserto, a cerca de 2.500 pessoas!

Factos que ajudam a explicar os múltiplos sentidos que o imaginário colectivo ocidental atribui à palavra "Dakar" que, por sua vez, sintetiza e absorve melhor do que qualquer outra, os conceitos de aventura, descoberta, evasão, esforço, endurance, risco, desespero e até tragédia. Porque literalmente tudo é posto à prova até ao limite. O carácter dos participantes. A sua resistência física e mental. As máquinas, sejam elas de duas, três, quatro, seis ou mais rodas.

Tudo isto é ainda hoje verdade, apesar de sucessivas medidas tendentes a aumentar a segurança e da utilização de novos instrumentos (como o GPS) terem diminuído consideravelmente o risco associado à maratona.

É ainda um Rali para gente madura, em que a estratégia e a experiência são bem mais relevantes do que a velocidade pura. O que não implica que se role devagar, bem antes pelo contrário. A prová-lo está a atracção pelo fenómeno que sentiram gerações tão diferentes de pilotos profissionais de elite, de Jackie Ickx a Carlos Sainz.

Se no final dos anos 70 o Rali beneficiava de participações essencialmente amadoras, a partir de meados dos anos 80 verificou-se um crescente envolvimento dos construtores. Desde então os mais puristas têm vindo a defender que já não há espaço para amadores. Se é certo que hoje são as marcas que dominam os topos das tabelas das várias categorias, e que uma inscrição para o Dakar custa cerca de Eur.50.000, a verdade é que ainda se encontram na caravana verdadeiros amadores, inclusive na comitiva portuguesa, o que ajuda a lembrar o que foram as origens da grande aventura e a manter a lenda bem viva.

Este ano, por força da conjugação de várias circunstâncias felizes, o rastilho Dakar ateou-se em Portugal. Durante cinco dias só nos faltou o Deserto.
O mundo desportivo, massacrante em quantidade de eventos durante quase todo o ano, não existe nos dias que namoram a passagem de ano. Tudo o que de desportivo passa nos televisores das casas de milhões de pessoas na semana seguinte à quadra natalícia chama-se...Dakar. Sabine percebeu isso desde o início e usou essa estratégia para atrair importantes apoios para a sua prova. Não pode espantar, por isso, a actual visibilidade colossal do fenómeno, os números envolvidos na operação ou o gigantismo da máquina que aterrou no magnífico cenário de Belém.

No sábado que marcou o início da competição, ainda de madrugada, nos acessos ao sector selectivo, auto-estrada, IP2, estradas nacionais, caminhos, tudo servia para ver passar a caravana. Confesso que já não me lembrava de ver este entusiasmo. A organização acenou com o número de 200.000 pessoas na estrada. Talvez só mesmo no antigo Rali de Portugal se tenha visto tamanha adesão.

Montaram-se especiais lindíssimas e suficientemente longas para oferecer ao público entusiasta um "cheiro" a verdadeira competição e desafio, assistindo à passagem ritmada de uma caravana tão eclética quanto motos, automóveis e camiões, todos juntos, podem proporcionar. Pela primeira vez em competição a sério na Europa, isto é, sem prólogo, com sectores selectivos exigentes e de extensão condizente.

A bússola do Rali apontou o rumo para Portugal durante estes dias. Os Portugueses souberam acolher a Aventura de uma forma a um tempo calorosa e profissional. A partir daqui é um imenso caminho de areia e pedra até ao Lago Rosa.

 

Texto e fotos de: Vasco Correia da Silva
.
Comentar este artigo