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2006.04.04
Porque a vida não é só feita de
automóveis.
Rali Terras da Maia 2006

É
sexta-feira e a sua mala de viagem está carregada não no seu habitual e racional
meio de transporte, mas antes, no alvo das suas paixões. No clássico a que
provavelmente dedicou grande parte do seu tempo e orçamento livres, mas que só
esporadicamente pode guiar e por períodos de tempo que sabem sempre a pouco. É
um veículo improvável para uma viagem, mas a confiança de que um levará o outro
ao seu destino é mútua entre condutor e automóvel. É aí que começa o prazer.
No caminho que leva ao ponto de partida, condutor e carro são outsiders. Como
alienígenas num planeta onde os primitivos são mais cinzentos, mais tristes e
bastante mais envergonhados.
O sorriso de criança que por esta altura será indisfarçável, tem um significado
e um valor, que só saberão reconhecer aqueles que mais gostam de si. Entendem o
que estes momentos significam e não hão-de querer perder a oportunidade de fazer
parte deles. Por isso, o mais provável, é que no banco do lado esteja alguém que
lhe diz muito. E porque o convívio não termina no banco do lado, ao fim da sua
primeira participação, é provável que o seu círculo de amigos tenda a
alargar-se. Os interesses são comuns e isso é meio caminho andado para um bom
entendimento. Por isso, chegado à partida, encontra o seu habitat natural. Um
ambiente onde a sua paixão deixa de ser doença. Onde as suas extravagâncias são
entendidas como investimentos. Onde o seu entusiasmo não é uma infantilidade,
mas uma sensação partilhada.
Mas além da boa companhia, o que mais está sempre presente numa escapadinha de
fim-de-semana? Sabores. Típicos e nada modestos. Nenhuma outra forma de arte se
aprecia de forma mais relaxada do que a gastronomia. A profundidade e eloquência
da gastronomia nacional são talvez a razão pela qual temos o hábito de viajar à
conquista de um determinado sabor, num determinado local, a uma determinada
hora. Um esforço demasiado grande por um prazer tão efémero – argumentam,
logicamente, os racionais. Mas convém não esquecer que falamos daqueles que
adoram os prazeres da vida. E esses, são hábeis a justificar as suas
irracionalidades. Nem que seja com outra irracionalidade como, por exemplo,
percorrer o caminho mais longo… Haverá prazer maior do que o caminho mais longo
percorrido com amigos, com família e com o carro do nosso imaginário de criança?
Por esta altura, poderá questionar-se se estas linhas são, afinal, sobre
automóveis. Certamente são sobre muito mais do que apenas automóveis. Mas assim
o são também os ralis de regularidade clássica.
Sobre o extraordinário Rali Terras da Maia de 2006, em particular, basta
sublinhar a simbiose perfeita entre automóveis e cenário. As linhas ondulantes e
sensuais do XK 140 combinavam na perfeição com as do Douro, das suas estradas e
pontes. O ar pitoresco e experiente do Ford T fazia par com o “velho casario”
das margens ribeirinhas. O Stratos, com o seu carácter extrovertido mas simples,
era a metáfora perfeita para o carácter das gentes do Porto. Carácter que, desta
vez, era comum aos que estavam de visita.
Texto: Hugo Reis
Fotos:
Hugo Reis e Rui Reis
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